JOAQUIM NÃO VAI À ESCOLA - CONHEÇA UMA HISTÓRIA BEM COMUM

Data:27 de dezembro de 2018 às 10:41

Aquela manhã seria diferente. Joaquim sentiu isso quando abriu seus olhos, antes mesmo do nascer do Sol; estava ansioso demais para dormir. O que trazia aquela sensação, um misto de esperança e felicidade, era o fato que seria o primeiro dia de suas aulas na faculdade.

Sua mãe, Carlota, estava mais animada que o próprio menino. Mãe de cinco filhos, queria nada menos que a prosperidade de cada um deles. Já o pai, achava besteira. Dizia que estudos não levavam a nada, tinham mesmo era que ajudar a pagar as contas de casa.

E assim Joaquim fez desde seus nove anos de idade. Procurava pessoas que teriam pena de sua condição de vida e oferecesse algum tipo de trabalho. Vivia nas ruas, procurando, pedindo. Havia dias que garantia o pão, e dias que lidava com os olhares decepcionados dos pais.

Era o mais velho, e, embora a diferença das idades não fosse muito grande, a responsabilidade era maior, e a cobrança também. Não só familiar, mas dele mesmo; odiava ter que submeter seus irmãos a uma infância marcada pela miséria.

Então trabalhava, todos os dias, durante anos. Não se importava com os estudos, e não tinha nenhuma perspectiva de vida. Nada pelo o que esperar no futuro, nenhuma promessa de melhoria. Achava injusto, e por vezes chorou de raiva, por se sentir impotente, mas era assim que as coisas funcionavam para alguém como ele.

Quando completou quatorze anos, as coisas tomaram um rumo perigoso. O trabalho honesto não rendia tantos lucros, e os bicos ilegais apareciam a cada esquina. Seu pai o alertou sobre isso, e sua mãe ficava horrorizada só de pensar, mas a tentação era grande demais, e o dinheiro, fácil.

Foi pego. Felizmente, por seus pais, e não pela justiça. Seus pais, que sabiam que era um menino bom e puro, apenas perdido pelas dificuldades impostas pela vida. Seus pais, que o dariam uma segunda chance. E não houve choro, gritos e nem punições. Ouviu um pedido de desculpas.

As coisas seriam diferentes agora, de acordo com seus pais. Ele estudaria, mas estudaria de verdade. Esperavam comprometimento a troco desse voto de confiança, e Joaquim não era bobo de desperdiçar essa chance. Sabia que a ideia tinha partido de Carlota, e um resmungo de relutância faria com que seu pai, Zeca, mudasse de ideia.

Então estudou. Ajudava na casa, mas na maior parte dos dias, estudava. Ia para as bibliotecas, lia de tudo: ciência, astrologia, física. Adorava os movimentos das partículas e a divisão celular. Era um mundo diferente, inovador e extremamente interessante.

Estudou três anos, e se formou. Com dezessete anos, trabalhou até conseguir o dinheiro para se inscrever em vestibulares. Fez cada um deles, com tanta dedicação que o resultado era de se esperar: aprovado em Farmácia. O que leva àquela manhã, com Joaquim deitado no pequeno quarto da casa de seus pais, mal esperando a hora de se arrumar para pegar uma longa viagem de ônibus até a faculdade. E assim o fez, durante cinco anos de sua vida.

 Perdeu as contas de quantas vezes pensou em desistir; por ser complicado demais, tomar muito tempo e dedicação, quando a situação piorava em casa. Mas sua mãe nunca permitiu. Ela sabia que, quando terminado, renderia frutos mais doces do que se largasse para ajudá-los.

E hoje, formado e especializado em Nanotecnologia, dedicava seu tempo livre em levar atendimento gratuito visitando fazendas nas redondezas, onde contava sua história para todos os jovens na mesma situação em que ele vivia quando criança, incentivando-os e deixando uma centelha de esperança.

Quanto a sua família... Joaquim se responsabilizou em financiar os estudos de cada um de seus quatro irmãos e a própria alfabetização da mãe, que empregou como sua secretária. O pai, por sua vez, que nunca teve fé no aprendizado, adquiria livros semanais sobre empreendedorismo e como gerenciar o próprio estabelecimento, um mercado de construção financiado pelo filho.

E assim, Joaquim agradecia todos os dias. Pela oportunidade, pelo incentivo da mãe e pelos estudos... Afinal, foram eles fatores que mudaram completamente a sua vida.

 

Foto: turma de formandos em Farmácia, 2015

Texto de Samantha Loren, meramente ilustrativo, mas que poderia simbolizar a história de alguns dos formandos da foto

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